quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Natal em Ílhavo


Maquineta de Presépio
Autor desconhecido 
 provável fabrico regional (Aveiro) 
 móvel em madeira e
torrão em barro policromado e cortiça 
 séc. XVIII – XIX
     Em quase todas as Capelas de Ílhavo existem presépios, todos eles de gesso e sem valor artístico relevante ou antiguidade. Na  Igreja Matriz de São Salvador de Ílhavo existem dois conjuntos a referir: uma maquineta de presépio setecentista e um presépio de peças grandes, de gesso, ainda ao culto. Sabe-se um substituiu o outro.

    O torrão (corpo) do presépio setecentista está incorporado na zona superior de uma maquineta (armário envidraçado com duas portas exteriores e cinco gavetas e porta interior). Representa, em barro policromado e cortiça lembrando as tradicionais “cascatas”, a cena do nascimento de Cristo e chegada dos Reis.

    A feitura de presépios de barro cozido e policromado foi prática corrente durante todo o séc. XVIII, existindo muitos exemplares, alguns deles, felizmente, ainda hoje completos, como os existentes no Museu de Aveiro.

    Infelizmente do nosso Presépio desapareceram as figuras centrais, a Sagrada Família, existindo destas apenas registo fotográfico. Ilustrando bem o restante conjunto, refere M. de Morais, “depois temos as figuras tradicionais: os pastores com as suas ofertas de ovelhas, caça, leite, frutas, e os Reis Magos, com incenso, a mirra e o ouro. Mas, além destes, há todo um mundo de personagens que se agitam, que se dirigem para o templo onde se encontra o Divino recém-nascido. O escultor deste deu largas à sua imaginação. Figuram ali o povo todo, radiante de alegria, porque nasceu Jesus, o Salvador do mundo. Ele sabe que o Natal é uma doce e alegre festa cristã. A festa das crianças, a festa do amor e do lar. Por isso, as suas figuras do presépio bailam e cantam; por isso, elas encaminham-se para junto do Divino Menino, levando-lhe os mimos da vida aldeã, as novidades da horta, o que de melhor encontraram na capoeira, no curral, na adega, na pocilga. Tudo o que o povo estima e ama. É uma romaria viva alegre e generosa. O escultor não esqueceu o régio cortejo dos Reis Magos, com soldados, cavalos, camelos – elefantes, até! – todos ricamente preparados, e a alegria do povo, as cenas típicas das aldeias, como o moleiro e o seu moinho de vento. Não é preciso chamar a atenção para esta ou aquela figura de um Presépio setecentista. Elas vêm ter connosco, direitas ao nosso coração, tão vivas se encontram na nossa tradição, tão portuguesas e tão belas como, talvez, nenhumas outras da nossa estatuária.”

Sagrada Família
Palmiro da Silva Peixe / desenho aguarelado a sépia / 1976
Espólio da Matriz de São Salvador de Ílhavo
    Desconhece-se a autoria das pequenas figuras deste conjunto. Estava antes das obras de restauro na sacristia velha da igreja Matriz, hoje a casa mortuária, passando para o núcleo museológico da Paróquia, onde actualmente se encontra.

    O presépio ao culto foi adquirido a 16 de Dezembro 1964 pelo prior D. Júlio Tavares Rebimbas. Comprado na casa União Gráfica em Lisboa custou na altura 1.705$50. É composto por 11 figuras grandes de gesso policromado: a Virgem, S. José e o Menino, um par de animais, um terno de reis, dois pastores, um músico de gaita-de-foles, e três pastores mais pequenos.

    Das nove aguarelas e desenhos existentes do pintor Palmiro Peixe no nosso espólio, esta ilustra bem a quadra natalícia. Foi oferecida por este para um leilão destinado à angariação de fundos para o restauro da Igreja Matriz em 1976, juntamente com um conjunto de aguarelas representando as capelas da Paróquia, das quais existem a dos Moitinhos e a da Vista Alegre. Existe também um Ex-voto do Sr. Jesus dos Navegantes pintado por Palmiro Peixe no início da sua obra pictórica, representando o lugre Gafanhoto, oferecido pelo Capitão Amândio Mathias Lau e tripulação em 1933.

Hugo Cálão
in o jornal “O Ilhavense”, de 01 Dezembro 2006

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Custódia do Divino Salvador

Custódia do Divino Salvador
c. 1940
Autor desconhecido / provável fabrico regional (Aveiro) 
prata relevada incisa e dourada, cristal de rocha, vidro /
século XVI – último quartel ; 1575 - 1600
92 alt x 45 larg x 26,5 prof
     Como refere Marques Gomes, “desconhece-se a sua proveniência. Diz-se que foi comprada em Lisboa nos fins do séc. XVIII e trazida então para Ílhavo. Em 1808 não teve a sorte de tantas outras que foram parar às mãos dos franceses, pelo decreto de Junot, porque a pessoa que a tinha sob sua guarda, a ocultou numa cova que abriu sobre a abobada do coro da igreja e ali a conservou até 1814 ou 1815. Todos a julgavam perdida, quando num dia de festividade aquele indivíduo a foi desenterrar e atravessou com ela triunfante por entre a multidão que enchia o vasto templo onde ecoou logo um brado uníssono de alegria e agradecimento ao vê-la. Bem disseram todos então feliz lembrança do honrado juiz da igreja em esconder a custódia, salvando assim das garras do invasor tão preciosa alfaia”.

     A custódia da paroquial de Ílhavo é uma soberba peça de transição entre o tipo de custódia com hostiário em forma de templete, para hostiário circular totalmente liberto de elementos arquitetónicos. É uma das mais referenciadas custódias ao nível nacional.
     Esteve presente na exposição retrospectiva de Arte Ornamental de Lisboa e na Exposição Distrital de Aveiro, em 1882, onde foi fotografada por E. Biel, e ainda na exposição de Arte Religiosa de 1895 em Aveiro, e mais tarde, na Exposição de Ourivesaria Portuguesa dos séc. XIII a XVII, realizada em 1940 em Coimbra, para a qual foi restaurada, entre outras mais. (Vd. foto)
     Embora sem marcas de ourives, poderemos apontar com possível datação o último quartel de 1500 (séc. XVI), com semelhanças na custódia-cálice de Belém (o nó), e igual morfologia nas três custódias de fabrico de Aveiro de menor dimensão existentes no Museu Machado de Castro de Coimbra, na Misericórdia de Aveiro e na paróquia de Vagos (a base e hostiário).
    De referir que neste período a paróquia de São Salvador de Ílhavo teve como prior D. Pedro de Castilho, filho do arquiteto Diogo de Castilho, o que poderá corresponder a uma encomenda daquele prelado. (ver+)

     De altura invulgar, quase um metro, é alteada em quatro elementos distintos (de baixo para cima).

1. A base, polilobada em dois registos, com um escudo esquartelado de armas dos Castros, Costas, Peixotos e Câmaras (segundo A. Nogueira Gonçalves, 1959) e timbre de chapéu abacial. 

2. O nó, hexagonal, com corpo arquitetónico em forma de templete.

3. A urna, com pedras verdes, de que pendem pingentes de cristal de rocha, e sobre a qual estão quatro anjos em adoração, de joelhos, com turíbulos esféricos que lhes pendem das mãos com recortes triangulares vazados.

4. O hostiário, circular, cercado de um grande resplendor de raios ondeados e direitos, sendo rematados por estrelas de vidros vermelhos e azuis. Remata a nossa custódia, a imagem de vulto do Divino Salvador, abençoando com as mãos e sustendo bandeirolas, envolto em resplendor oval com raios direitos e ondeados.      



Brasão inciso na base
Leitura Heráldica:    Escudo esquartelado: 1.º de ALMEIDAS ou MELOS; 2.º SÁ ou COTRIM ou PEIXOTO; 3.º de COSTA; e 4.º de CÂMARA.

Descrição e análise:

Almeida:  De vermelho, com seis besantes de ouro entre uma doble-cruz de ouro, cujos braços tocam a bordadura, tudo do mesmo metal.

Melo:  De vermelho, com seis besantes de prata entre uma doble-cruz de ouro, cujos braços tocam a bordadura, tudo do mesmo metal.

Sá: Enxequetado de prata e azul de seis peças em faixa e oito em pala.
 
Costa:  De vermelho, com seis costelas de prata, postas 2, 2 e 2, firmadas no flanco do escudo.




Hugo Cálão
in jornal 'Família Paroquial', de Março de 2005
in jornal 'O Ilhavense', de 1 Março 2006


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Párocos de Ílhavo: D. Júlio Tavares Rebimbas 1949-1964

Elementos para uma foto -biografia:

   Faleceu no dia 6 de Dezembro, aos 88 anos, D. Júlio Tavares Rebimbas, ex-prior da Paróquia de São Salvador de Ílhavo, e ilhavense convicto de coração ... como gostava de relembrar!

   D. Júlio Tavares Rebimbas nasceu na freguesia de São Mateus de Bunheiro, concelho da Murtosa, a esse tempo Diocese do Porto, em 21 de Janeiro de 1922, filho de Sebastião Tavares e de Maria Antónia Tavares Rebimbas, ele  agricultor, ela costureira.
   Frequentou o Colégio de Ermesinde e o Seminário de Vilar, no Porto, até 1939. Por motivo da criação da Diocese de Aveiro, frequentou o 6º ano no Seminário dos Olivais, em Lisboa, o 7º ano no Seminário de Santa Joana em Aveiro e concluiu o curso teológico no Seminário dos Olivais, em 1945.
   Foi ordenado presbítero pelo Arcebispo-Bispo de Aveiro, D, João Evangelista de Lima Vidal, em 29 de Junho de 1945, em Pardilhó.

   Celebrou Missa Nova, na sua terra natal, em 8 de Julho de 1945, sendo, no mesmo ano, nomeado Coadjutor do Pároco de Ílhavo.
   Em 1946 foi nomeado Pároco de Avelãs de Cima e Avelãs de Caminho, em Anadia.

 Em 21 de Outubro de 1949, foi nomeado Pároco de Ílhavo, em 1951, Arcipreste de Ílhavo e em 1952, Professor de Religião e Moral.

Obra de reconstrução da Igreja Matriz
de São Salvador de Ílhavo - c. 1951
    Desde 1951, empenhou-se na reconstrução a Igreja Matriz de São Salvador de Ílhavo e da residência Paroquial.
   Em 1958, foi nomeado Vigário Judicial da Diocese de Aveiro, em 1959, Vigário Geral da mesma Diocese e ainda nesse ano, nomeado Monsenhor, por S.S. o Papa João XXIII.
   Em 1961, nomeado Diretor do Colégio Liceal João de Barros, em Ílhavo.
   Em 21 de Janeiro de 1962, eleito Vigário Capitular da Diocese de Aveiro, por falecimento de D. Domingos da Apresentação Fernandes e a 8 de Dezembro do mesmo ano, Governador do Bispado de Aveiro, na ausência de D. Manuel de Almeida Trindade.
   Em 1963, nomeado Consultor Diocesano e de novo Vigário geral.
   Foi presidente da Assembleia Geral da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, e Membro de várias Comissões e Conselhos. Fundou, em 1954, o boletim "Família Paroquial", o Centro de Formação e Assistência de Ílhavo, o Património dos Pobres de Ílhavo, o "Lar de S. José" destinado a pessoas idosas e 18 casas para famílias pobres.
Obra de reconstrucção da residência
Paroquial de Ílhavo - c. 1951

   Em 1965 participa no Concílio Ecuménico Vaticano II (1962-1965); tinha na altura 43 anos, quando em 27 de Setembro de 1965 foi eleito pelo S.S. Papa Paulo VI, para Bispo do Algarve.

  Em 26 de Dezembro, dia de Santo Estêvão, do mesmo ano, foi ordenado Bispo, no Estádio Municipal de Ílhavo.

   Em fins de Janeiro de 1966 tomou posse da Diocese do Algarve, tendo sido eleito Delegado Nacional para a Pastoral do Turismo, no mesmo ano.
   Em 1 de Julho de 1972, eleito Arcebispo de Mitilene e Auxiliar do Cardeal Patriarca de Lisboa, e eleito Presidente da Comissão Episcopal da Educação cristã, no mesmo ano.
   Em 3 de Novembro de 1977 eleito pelo Santo Padre Paulo VI para primeiro Bispo da Diocese de Viana do Castelo, criada na mesma data.
   Em Junho de 1981 eleito Presidente da Comissão Episcopal da Liturgia.

  Ordenação de Bispo do Algarve no
Estádio Municipal de Ílhavo - 26 de Dezembro de 1965

   Em 12 de Fevereiro de 1982 nomeado Bispo do Porto e na mesma data Administrador Apostólico de Viana do Castelo.Tomou posse da Diocese do Porto em 2 de Maio de 1982.

   No dia 15 de Maio recebeu o Santo Padre João Paulo II, no Porto, tendo sido eleito no mesmo ano para o Conselho Permanente do Episcopado Português.
   Nomeado em 4 de Janeiro de 1986 para Membro da Congregação dos Bispos.
   Nesse ano fez lançamento e execução de obras de restauração da casa da Rua da Boa Vista, das Palhacinhas, do Seminário da Sé, da Casa Episcopal e da Torre da Marca.
 Organizou o congresso Diocesano dos jovens, em 1986, o congresso Diocesano de leigos em Dezembro de 1988, e o lançamento da Construção do Centro Diocesano de Vilar em Fevereiro de 1989, concluído em 1993.
   Fez o lançamento da reconstrução da Casa Diocesana de S. Paulo, em Cortegaça, em 1990, concluída em 1992, e a reconstrução de um pavilhão do Seminário Médio do Bom Pastor, em 1994.
   Organizou o congresso Diocesano da Família em 1994, e a reconstrução da Cúria Diocesana e do Tribunal Eclesiástico em 1995.
   Em 31 de Maio de 1997 recebe a Medalha de Honra da Câmara Municipal do Porto.

Em 31 de Junho de 1997, com a Nomeação de D. Armindo Lopes Coelho para Bispo do Porto, foi aceite a resignação como Bispo do Porto.

No dia 19 de Julho de 1997, a Diocese do Porto homenageia o que foi o Bispo nos últimos 15 anos, em Cerimónia Solene na Casa Diocesana de Vilar.

Hugo Cálão, Dez 2010