terça-feira, 17 de maio de 2011

Breve do Papa Clemente XIV à Igreja Matriz de Ílhavo, 1774


Arquivo da Paróquia de Ílhavo © , Breve de jubileu das quarenta horas
para a Igreja Matriz de Ílhavo, 30 de Junho de 1774
(clica na imagem para ampliar)











Tradução:

   CLEMENTE, papa décimo quarto; A todos os fieis de Cristo que virem as presentes letras saúde e bênção apostólica. Para aumentar a religião dos fieis, a a salvação das almas aplicados nos compsia caridade aos celestiais tesouros da Igreja pelas presentes que hão-de valer somente por sete anos misericordiosamente em o Senhor concedemos Indulgência plenária e remissão de todos os pecados a todos os fieis que verdadeiramente contritos e confessados e refeitos com a sagrada comunhão por algum espaço de tempo devotadamente assistirem à oração das quarenta horas continuadas e não interpoladas senão no tempo da noite que se há-de instituir de licença do ordinário uma só vez no ano na Igreja Paroquial do lugar ou Vila de Ílhavo, Bispado de Coimbra e aí rogarem a Deus pela concórdia dos príncipes cristãos extirpação das heresias e exaltação da Santa Madre Igreja. Porém queremos que as presentes sejam nulas se em outro tempo perpétuamente ou por tempo ainda não acabado aos fieis de Cristo que em qualquer outro dia do ano visitarem a dita Igreja se tenha concedida outra alguma semelhante Indulgência que ainda dure ou se pela impetração, apresentação, admissão ou publicação das presentes se der ou receber alguma coisa ainda mínima e expontaneamente oferecida.
   Dadas em Roma, junto a santa Maria Maior debaixo do anel do Pescador aos trinta de Junho de mil setecentos e setenta e quatro, ano sexto do nosso Pontificado=

Livro: Senhor Jesus dos Navegantes - Mar e devoção
















Publicação de co-autoria de Hugo Cálão e Isabel Cachim Madaíl
Á venda no Centro Paroquial de Ílhavo 5€, contactos: 234181850

A festa e a procissão do Senhor Jesus dos Navegantes de Ílhavo


Andor do Senhor Jesus dos Navegantes de Ílhavo
em dia de festa, c. 1930
   Vem de tempos imemoriais apego das nossas gentes às lides do mar; pela sua situação ribeirinha, o mais natural seria que os homens de Ílhavo se voltassem para a ria, onde, saindo pelo esteiro da Malhada começaram por uma pesca muito artesanal, tentando tirar das suas águas o peixe que iria prover ao sustento das suas famílias, sendo o excedente vendido pelas mulheres, que o apregoavam no seu linguajar cantante. Daí aventuraram-se ao mar, primeiro em São Jacinto, depois na Costa Nova onde, num barco a remos, característico da arte xávega, ultrapassavam a rebentação, indo lançar a rede mais ao largo. Mas o ílhavo foi sempre corajoso e lá se aventurou na cabotagem e no mar alto na pesca, nos transportes, etc., sempre com barcos e aparelhagem rudimentar.
   Sem grandes recursos, em dias de “mar bravo”, grandes tempestades, seriam bem aflitivas as situações por que passavam!
   O homem do mar é por índole crente e temente a Deus. É ao Seu Divino Filho que recorre em momentos de perigo e são tantos… É a imagem do Cristo sofredor, na cruz, que traz no coração, imagem que se encontra ao culto na Igreja Matriz sob a invocação de Senhor Jesus dos Navegantes, cuja festa se celebra, ainda hoje, no primeiro domingo de Setembro.

   A procissão fazia o seu itinerário de inicio pela rua Direita ou rua Arcebispo Bilhano, saindo da Igreja Matriz, intersectando a Praça da República e seguindo até à Capela de Nossa Srª do Pranto, regressando depois. Era acompanhada ora pela custódia paroquial ora pela relíquia do Santo Lenho. Este trajecto foi até ínicios do século XX o principal da antiga Vila de São Salvador, quer para os actos de culto quer para os civis.



Na sua imponente procissão, cujo itinerário foi há anos alterado, integram-se as irmandades da Senhora do Pranto e do Santíssimo Sacramento e Almas, os tradicionais anjinhos. Os meninos que levam os ramos da mordomia, tomam lugar à frente do andor do Senhor Jesus, adornado com o lugre miniatura, sanefas adamascadas e os característicos ramos de flores artificiais; seguem-se as representações dos marítimos, com as suas respectivas bandeiras e uma banda de música.
Atrás do pálio seguem as autoridades locais, penitentes cumprindo promessas, a mordomia e outra banda de música.
Atrás desta, o povo de Deus.

Armação da Festa ao Senhor Jesus dos Navegantes - 1952
(SENHOR JESUS ABENÇOAI OS NOSSOS MARINHEIROS - ÍLHAVO)

Subida para Alqueidão, procissão de 1999
   Segundo o itinerário actual, a procissão, saindo da Igreja Matriz segue pela Avenida Manuel da Maia, subindo à Rua de Alqueidão até ao cais da Malhada, onde é feita uma paragem e rezada e reflectida uma passagem da Sagrada Escritura. 
   Procede-se à bênção das actividades marítimas, já que é aí que Ílhavo está voltado para o mar; as águas da ria estão salpicadas de barquinhos engalanados e coloridos que saúdam, enquanto se retoma o caminho pela Avenida 25 de Abril. Na Igreja, com as orações finais dá-se por terminada a procissão.

   E é assim que, ao honrar e louvar o Senhor Jesus, se continua uma tradição velhinha de muitos anos, que se pretende melhorar cada vez mais, para glória de Deus

   Anos houve em que a festa ao Senhor Jesus se efectuou em Novembro e Dezembro.

   Na segunda-feira a, ao final da tarde, celebrada a Missa de sufrágio pelos marítimos falecidos; e como em Ílhavo ”quem não rema, já remou!”, a maioria das pessoas tem as raízes ligadas ao mar e a Igreja fica repleta.
   No final da Missa são distribuídos os ramos pelos mordomos que estão na disposição de dar continuidade à festa e a isso se comprometem perante o pároco e a comunidade.

Comissões de Festa e Mordomias

Da festa do Senhor Jesus, embora havendo referências desde o século XVII, só há registos escritos a partir de 1865, que não vão além das receitas e despesas. É de 1953 uma das primeira listas escrita da mordomia do Senhor Jesus; era pároco o agora Bispo Emérito do Porto D. Júlio Tavares Rebimbas.

Procissão de Dezembro de 1956
D. Júlio Tavares Rebimbas,
segurando a relíquia do Santo Lenho;
lanterna (Cap. José Bilelo)
pálio da direita para a esquerda
(Joaquim da Graça; Mário Paulo do Bem
Carlos FernandesParracho; José Leite
 João Rigueira Alão; Francisco Leite
António Pascoal)

Mordomia do Senhor Jesus dos Navegantes para 1953

Juiz – Capitão Carlos Fernandes Parracho – Rua João de Deus
Tesoureiro – Capitão Manuel Guerra – Rua João de Deus
Secretário – Capitão Augusto Labrincha – Rua João de Deus
Vogais –
Capitão Armindo Ré – Rua de Camões
Capitão Armando Ramalheira – Corgo Comum
Capitão António Augusto Marques – Rua João de Deus
José António Bichão – Rua João de Deus
Manuel Carlos Ratola – Rua Direita
Júlio de Oliveira Bio – Rua Direita
José Oliveira da Velha – Rua Dr. Samuel Maia
José Paulo Moreira Patacão – Rua Dr. Samuel Maia
Manuel Soares Melo – Rua Dr. Samuel Maia
Sara de Jesus Grilo – Rua Dr. Samuel Maia
Adelaide da Silva Anadia – Rua Direita

   Após as obras de restauro da Igreja há, a partir de 1977, um interregno no que respeita à procissão, que deixou de percorrer as ruas de Ílhavo. Contudo, o altar do Senhor Jesus foi sempre zelado por um grupo de mordomas e sempre tiveram lugar os tradicionais actos de culto no primeiro domingo de Setembro.


Cartaz da festa de 1982
   A partir de 1982 é retomada a saída da procissão e a festa continua, até hoje, nos moldes habituais. A ornamentação da Igreja e do andor sempre foram preocupação prioritária das mordomias, sendo a missa da festa preparada com cuidado e devoção. Na semana anterior é altura da reconciliação com Deus, já que quem ama o Senhor O quer receber de coração renovado.

   Além da festa religiosa decorre, no jardim Henriqueta Maia e suas imediações, um alegre convívio de todos que, ao som da música, passeando pelas ruas decoradas com armações iluminadas e tendas de vendedeiras de bolos, esperam pelo fogo de artifício, o ponto alto do arraial.

in Cálão, Hugo, Madaíl, Isabel,
Senhor Jesus dos Navegantes - Mar e Devoção,  2007, pp. 16-21
Ed. Paróquia de São Salvador de Ílhavo, nº depósito legal 262970/07

Lugre miniatura o "Navegante" do Senhor Jesus dos Navegantes de Ílhavo

Miniatura - Lugre Navegante
José Domingues Pena / século XX - 1919
madeira; linho;elementos metálicos, cordão; arame
 187 comp x 31 larg x 120 alt 
  O “Navegante” é um modelo miniatura do lugre Navegante, com três mastros e velas latinas construído pelo marinheiro ilhavense José Domingues Pena, nascido em 1902. Quando começou a miniatura, o seu autor teria 17 anos, levando peças para bordo para as ir fazendo durante a viagem, em dias de mau tempo.   
   Quando naufragou, na faina do bacalhau, prometeu ao Senhor Jesus dos Navegantes que, se a acabasse, lha ofereceria e assim o fez em 1919. A miniatura esteve na Igreja Matriz algum tempo mas passou a ficar guardada em casa duma irmã de José Pena, ficando mais tarde definitivamente depositada na Igreja Matriz.    
    
   Sempre tem figurado na procissão dos marítimos, incorporada no andor do Senhor Jesus dos Navegantes, do lado direito da imagem, num mar de lona pintada. Encontrava-se bastante fragilizado com quase 90 anos de procissões, tendo sofrido recentemente uma intervenção de conservação pelo Capitão Francisco Paião a quem agradecemos a mestria e dedicação.
   O lugre o “Navegante” que serviu de base ao modelo, segundo o Jornal de Ílhavo de 1904, foi lançado à água em Fão, e era propriedade do Sr. Bernardo dos Santos Camarão de Ílhavo e José Gouveia do Porto. Na sua primeira viagem saiu para Setúbal a carregar sal para o Porto.

in Cálão, Hugo, Madaíl, Isabel,
Senhor Jesus dos Navegantes - Mar e Devoção,  2007, p. 15
Ed. Paróquia de São Salvador de Ílhavo, nº depósito legal 262970/07

Festa de Nossa Senhora do Pranto de Ílhavo em 1836 - Lutas liberais

ARTIGOS DE OFFICIO (Reino) 
 Portaria em 17 de Agosto ao Governador Civil de Aveiro, em resposta ao seu oficio de 21 do corrente, em que da parte da prisão de 4 indivíduos, que com mais alguns dos outros pescadores da companhia dos capotes haviam dado vivas a D. Miguel na romagem, e festa de Nossa Senhora do Pranto, em Ílhavo, no dia 15 deste mes, e percorrendo de noite as ruas daquela Vila tinham provocado com insultos, e desafios a gente constitucional; a fim de que o mesmo Governador auxilie a acção da justiça acerca da existência, e circunstancias destes factos, e seus actores, para serem punidos.

Venda da Capela da Vista Alegre em 1814

AVISOS.
Nos dias 5, 9, e 12 de Dezembro próximo, se hão de pôr a lanços no Conselho da Real Fazenda os Bens da Capela, chamada da Senhora da Penha de França, na Ermida da Freguesia de Ílhavo, em Aveiro, de que é Donatária D. Ana Teresa Luísa de Sousa, para se arrematarem no ultimo deles; ficando salva a fruição vitalícia da dita Donatária.

Autos de revista da Capela de São João Baptista da praia da Barra

1880, Junho, 15:



Capela São João Baptista da Barra, 1880 -  fachada.
Autos de revista da Capela de São João Baptista mandada construir nas areias da Barra por João Pedro Soares, natural da freguesia da Senhora da Glória de Aveiro

Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e oitenta aos quinze dias de Junho, nesta Câmara Episcopal de Aveiro, a petição que a diante faço termo, eu José Pereira de Carvalho a escrevi a assino. Ass

João Pedro Soares morador nesta freguesia de Nossa Senhora da Glória de Aveiro, por sua particular devoção para com São João Baptista mandou construir uma Capela em terreno seu nas areias da Barra de Aveiro, freguesia de São Salvador de Ílhavo; e por que muito desejo que se celebre nela o santo sacrificio vem requerer a V. Ex.a se digne conder licença para benção da dita Capela que tem o ornato necessário, com V. Exd.a pode mandar averiguar por que julgar conveniente, ficando capela de uso público. Pede deferimento.

Auto de revista

Capela de São João da Barra - interior
retábulo da capela-mor provindo do extinto
Convento de Santo António de Aveiro
Em cumprimento da ordem de V. Ex.a constante do mandado junto, fui às areias da Barra, e aí unida a uma morada de casas mandadas construir pelo requerente João Pedro Soares, encontrei uma Capela que pretendem denominar de São João Baptista do banho santo, mandada construir pelo mesmo proprietário em terreno seu e a expensas suas, cuja Capela alinha com as ditas casas e está dentro do quintal das mesmas, com a porta principal para o areal em frente do mar e é de fácil acesso às pessoas que ali vão tomar banhos por ficar próxima da praia; tem uma porta travessa para o aido das casas. Tem a dita Capela de comprimento interior 4,5 m por 3 m de largo. O altar tem 2 m e a tribuna acima do altar 2,5 m; está soalhada, rebocada e forrada, pintado de branco o forro, altar e tribuna, tem banqueta de quatro castiçais e cruz com imagem, de madeira pintada a branco e amarelo e pedra de ara vinda do extinto Convento de Santo António da cidade de Aveiro; nãop tem sacristia nem credencias, mas lugar para estas se está a fazer. Tem um cálice com sua patena e colher de prata dourada, um sanguineo, duas bolsas de corporais, uma branca outra encarnada de damasco, uns corporais duplicados de linho, dois véus de cálice de seda, um branco outro encarnado, uma alva, amito e cordão de linho, três casulas com manípulos e estolas tudo de damasco, branco, encarnado e branco e encarnado, um manustérgio, um prato de estanho com duas galhetas de vidro, um missal impresso em Lisboa em 1860 e sua estante de pau-preto, tudo em muito bom uso. e isto achei no exame a que procedi, e não achei faltas que mereçam notar-se parecendo-me estar no caso de breve se poder benzer.

Ílhavo, 19 de Junho de 1880
O prior, João André Dias