terça-feira, 25 de novembro de 2014

Património dos pobres da freguesia de Ílhavo: origens e acção (1954-2014)

"Tudo quanto a Igreja possui, seja em propriedade, seja em dinheiro, é património dos pobres. E assim, lembrem-se bispos e padres que estão a manejar não valores próprios, mas os destinados à necessidade dos pobres; valores que, se de má-fé são suprimidos ou dilapidados, se constituem réus de sangue. Daí serem admoestados a que, com sumo tremor e reverência, como à vista de Deus, os distribuam, sem acepção de pessoas, àqueles a quem se devem. Daqui também aquelas sérias reiterações em Crisóstomo, Ambrósio, Agostinho e outros bispos como eles com as quais diante do povo asseveram sua integridade." 
(João Calvino (1509–1564), em Institutas, Livro IV, Capítulo XIII).

                Foi por iniciativa e visão do Padre Américo1, apóstolo da caridade e fundador da “Obra de Rua” para rapazes órfãos ou sem casa, que, na década de 40 de 1900, se espalhou pelo país a revolucionária cruzada para que se unissem as boas vontades, e para que sem grandes teorias se passasse o campo das realizações, a se lançassem a construção de casas para necessitados, que delas se serviriam a título precário. O nome desta instituição seria “Património dos Pobres” e o seu suporte jurídico, em cada freguesia, seria a Fábrica da Igreja Paroquial.2
                Atenta a esta iniciativa de 1951 e tendo em vista a renovação da vida paroquial pela colaboração dos sacerdotes e dos leigos a 14 de Setembro de 1953, na segunda semana de Estudos Pastorais da Diocese de Aveiro, no plano de Acção Pastoral para o ano de 1953-54, foi delineado lançar em todas as paróquias da Diocese de Aveiro a iniciativa do “Património dos Pobres”.3 A partir desse ano de 1953, multiplicaram-se as acções de promoção conseguindo o Padre Américo subsídios para quem se lançasse a construir. A sua acção humanitária seria sem precedentes, entusiasmando as comunidades paroquiais e mantendo por correspondência um contacto próximo e auxiliador.
                Durante esse ano, 2 e Abril de 1954, lançou-se a primeira pedra para dez moradias na freguesia da Vera Cruz em Aveiro, seguindo-se a construção até 1964 de mais 97 moradias para famílias pobres. Entre estas, construíram-se em Ílhavo dezoito casas, após a competente instituição em 9 de Setembro de 1959 e autorização de estatutos dada pelo Bispo de Aveiro a 2 de Dezembro de 1959.
                O Património dos Pobres iniciaria desta forma a sua acção em Ílhavo, vendo os estatutos aprovados por despacho de 19 de Dezembro de 1959 da Direcção Geral de Assistência4, tendo como objectivo contribuir para a formação, promoção e assistência à população da Freguesia de São Salvador de Ílhavo, estendendo a sua actividade: na assistência à Família, através de aquisição de moradias, acesso a subsídios através das Conferências de São Vicente de Paulo para rendas de casa de famílias carenciadas; na assistência a crianças, adolescentes e jovens, através de casas em regime de internamento, para órfãos abandonados ou em situação familiar precária e criação de centros de apoio à educação, cultura e aperfeiçoamento profissional ou lares para jovens trabalhadores e estudantes; na assistência e apoio à terceira idade, através de lares para a terceira idade, centros de acolhimento e convívio e apoio domiciliário.
Centro Paroquial de Ílhavo em construção, c. 1955
                Desde a sua nomeação para pároco de Ílhavo a 21 de Outubro de 1949 que, D. Júlio Tavares Rebimbas, Arcipreste de Ílhavo desde 1951, foi a “chama-acesa” para que a fundação desta obra e toda a sua actividade acontecesse. A partir de 1950, empenhou-se na reconstrução a Igreja Matriz de São Salvador de Ílhavo e da residência Paroquial, fundando, em 1954, o boletim "Família Paroquial", e em 15 de Setembro de 1956 o Centro Paroquial de Formação e Assistência de Ílhavo.

Centro Paroquial de Ílhavo, c. 1960
Em 1958, D. Júlio foi nomeado Vigário Judicial da Diocese de Aveiro, em 1959, Vigário Geral da mesma Diocese e ainda nesse ano, nomeado Monsenhor, por S.S. o Papa João XXIII.
Funda também nesse ano, como anteriormente se registou o “Património dos Pobres” da freguesia de Ílhavo.
Em 1961 é nomeado Director do Colégio Liceal João de Barros, em Ílhavo. Em 21 de Janeiro de 1962, eleito Vigário Capitular da Diocese de Aveiro, por falecimento de D. Domingos da Apresentação Fernandes e a 8 de Dezembro do mesmo ano, Governador do Bispado de Aveiro, na ausência de D. Manuel de Almeida Trindade.
Foi inesgotável a sua actividade e benemerência a Ílhavo até que a 27 de Setembro de 1965 foi eleito pelo S.S. Papa Paulo VI, para Bispo do Algarve.
                Em virtude de um valioso legado de D. Celeste Maria dos Santos feito ao “Património dos Pobres” de Ílhavo, D. JúlioTavares Rebimbas pode acalentar um dos mais queridos os objectivos desta obra e edificar, em 1962, um asilo misto de assistência à terceira idade para cerca de 60 utentes, fundando-se o “Lar de São José de Ílhavo”. Ainda por sua acção a 30 de Setembro de 1964, a Congregação das Religiosas do Amor de Deus inicia a sua missão no Lar de São José em Ílhavo que começou por acolher 22 utentes.
                D. Celeste Maria dos Santos, por disposição testamentária, cedeu igualmente a cota que o seu marido detinha na sociedade gestora do cinema Cine-Triunfo da Gafanha na Nazaré, vendido a 12 de Fevereiro de 1962 revertendo a receita para esta obra.
                Em 2 de Janeiro de 1966, viria a Ílhavo para inaugurar o novo edifício do Centro Paroquial de Formação e Assistência, dedicado a D. Manuel Trindade Salgueiro, um seu sonho desde há muito acarinhado pela comunidade paroquial.
                A instituição cresceu, e como mostra o relatório de actividades, em 1982 o “Património dos Pobres” da freguesia de Ílhavo contava já com três valências geridas pelo então pároco Urbino de Pinho: o “Lar de São José” para a terceira idade, a “Obra da Criança”, de assistência a crianças, órfãs ou abandonadas, com capacidade para 60 utentes, e de A.T.L., proporcionando assistência em actividades de tempos livres a crianças de idade escolar. Também mostra, que além da gestão das valências, um considerável incremento de legados imobiliários, e que para além das habitações para famílias pobres do “Bairro das Cancelas”, haviam sido construídas mais quatro habitações no “Bairro da Rua do Casal”, subsidiando-se também a famílias e paroquianos em necessidade o arranjo de inúmeras moradias em mau estado.
                Em 6 de Novembro de 1996 é fundada a quarta valência da instituição, o “Lar do Divino Salvador” de Ílhavo, para assistência a mulheres e crianças vítimas de abuso, mães solteiras, mulheres vítimas do “tráfico de mulheres” ou que, tendo conhecido a prostituição, desejam inserção, contando com a colaboração da Congregação de Irmãs de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor.
                A pedido de D. António Marcelino, Bispo de Aveiro, e do então pároco de Ílhavo, Padre Urbino, que desde 2001, solicitavam insistentemente a presença da Congregação de Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora, para de se dedicarem à “Obra da Criança”, a Congregação envia, em Setembro de 2002, uma irmã para esse fim, embora com residência comunitária em Aveiro. No dia 4 de Novembro de 2003, abre oficialmente, uma comunidade com três irmãs em casa cedida pela ”Obra da Criança”. Na fundação estiveram 3 irmãs: Mafalda, Laurinda, e Maria Isabel. Neste momento estão nesta comunidade quatro irmãs: Mafalda, Laurinda, Mª dos Anjos e Rosa. A acção da comunidade é orientar e ajudar a “Obra da Criança” na assistência das crianças, contando na actualidade com 30 utentes. Todas as três congregações estão inseridas na Paróquia de Ílhavo e nela colaboram.

Ílhavo, 13 de Junho de 2014, dia de Santo António

Hugo Cálão
Mestre em História e Património



[1] Américo Monteiro de Aguiar,mais conhecido por Padre Américo (Galegos, Penafiel, 23 de Outubro de 1887 — Valongo, 16 de Julhode 1956). http://pt.wikipedia.org/wiki/Am%C3%A9rico_Monteiro_de_Aguiar
[2] Gaspar, João Gonçalves, A Diocese de Aveiro – Subsídios para a sua História, Edição Cúria Diocesana de Aveiro, 1964, p. 508-509.
[3] Ver Correio do Vouga nº 1159 e 1160, respectivamente de 19-09-1953 e 26-09-1953.
[4] Publicados no Diário do Governo nº 303, III série de 30 de Dezembro de 1959, com actualização de 6 de Janeiro de 1983, sob o nº 2/83, f.139v-146.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Párocos de Ílhavo: Pe. João Martins dos Santos 1755-1802

O Pe. João Martins dos Santos nasceu na freguesia de Santo André de Ardãos, filho de Pedro Gonçalves, lavrador e de Isabel Martins naturais da mesma freguesia, neto paterno de Frutuoso Gonçalves o Tavarelo de alcunha, natural de Pedraria, freguesia de Serraquinhos em Montalegre e de Joana Gonçalves e materno de Miguel Martins o Arado, lavrador e de Isabel Preta da freguesia de Ardãos. Seu irmão António Martins dos Santos e tio paterno Domingos Gonçalves dos Santos foram familiares do Santo Ofício. Foi prior da freguesia de São Salvador de Ílhavo desde 17 de Junho de 1755, por dada carta e apresentada por El-Rei D José, priorado que vagara por falecimento do prior Francisco de Almada Galafura, sendo o segundo prior provido por sua Majestade. Deu a célebre informação paroquial sobre a freguesia de Ílhavo - Sua Luce Jesu duce: Descripção da Villa de Ílhavo em 1758, acompanhando as obras de ampliação da Matriz de Ílhavo. Foi comissário do Santo Ofício por provisão de 16 de Dezembro de 1771. A 30 de Agosto de 1800, compadecido pela miséria dos seus paroquianos, pede licença e confirmação ao Tribunal da Mesa do Desembargo do Paço para fundar à sua custa um hospital em Ílhavo. Faleceu em 1802.

Párocos de Ílhavo: Pe. Luís de Almadab 1708

O Pe. Luís de Almada era filho bastardo do donatário da Vila de Ílhavo, D. Cristóvão de Almada e de D. Maria Rolim, irmã de Francisco Barques Rolim, cavaleiro da Ordem de Cristo, filhos de João Barques Rolim e de Maria da Mota. Estudou em Coimbra e, depois de formado, foi clérigo e abade da Igreja de Alfandega da Fé, do padroado Real. Mais tarde paroquiou a Igreja de São Miguel de Oliveira do Bairro, também do padroado real, donde passou a prior da Igreja de São Salvador de Ílhavo, igreja de grande renda, padroado da casa de seu pai. Renunciou mais tarde, tirando uma pensão de 2500 cruzados cada ano, tendo outros benefícios eclesiásticos. Foi deão da Capela Real e Deputado do Santo Ofício de Lisboa, por provisão de 23 de Fevereiro de 1708. A 15 de Julho de 1709, foi nomeado prior-mor de Aviz e tomou o hábito na Igreja da Encarnação dos religiosos da mesma Ordem a 22 de Junho do ano seguinte, lançado pelo prior da dita Igreja, Frei João Barracho. Morreu em Lisboa a 8 de Abril de 1720.

notas: História Genealógica da Casa real Portuguesa, XI, 19, p.252.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Párocos de Ílhavo: Pe. Cristóvão Ferreira e Vasconcelos

O Pe. Cristóvão Ferreira e Vasconcelos nasceu na freguesia de São Miguel de Oliveira do Bairro, filho de Paulo Ferreira e de Antónia Ferreira, da mesma freguesia, neto paterno de Cristóvão Ferreira e de Domingas Francisca naturais do Mego, Oliveira do Bairro, e materno de Domingos João Vilanova e de Luisa Ferreira também da freguesia de São Miguel. Foi confessor, bacharel em cânones, sendo elevado a Comissário do Santo Ofício por provisão de 10 de Julho de 1708. Paroquiou a Igreja de São Salvador de Ílhavo.

notas: Lima, Jorge Hugo Pires de, O Distrito de Aveiro nas Habilitações do Santo Ofício, in revista Arquivo Distrital de Aveiro, vol. XXVII, 1961, p.59.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Párocos de Ílhavo: Pe. João Maria Carlos 1948-1949

O Pe. João Maria Carlos nasceu em Outubro de 1900 na Gafanha da Nazaré, nessa data ainda pertença da Paróquia de Ílhavo. Frequentou o seminário de Coimbra sendo ordenado na Capela do referido seminário por D. Manuel luis Coelho da Silva a 11 de Março de 1933.  Foi nomeado pároco da Paroquia de Dormes e de Paio Mendes em 7 de Agosto de 1933. Em 7 de Fevereiro de 1934 passou a coadjutor da Paroquia de Vagos, sendo nomeado pároco do troviscal e da Mamarrosa a 18 de Junho de 1935. Em 6 de Dezembro de 1936 regressa novamente a coadjutor em Vagos, sendo nomeado a 30 de Novembro de 1937 pároco de Valongo do Vouga e de Lamas do Vouga. Foi nomeado pároco de Ilhavo a 23 de Abril de 1948, paroquiando até 29 de Setembro de 1949, altura em que é nomeado pároco da Murtosa onde a 13 de Novembro de 1950 é nomeado Arcipreste. Faleceu a 6 de Novembro de 1957 na Casa de saude de Coimbra na rua da Sofia, apos uma operaçao, sendo sepultado na Gafanha da Nazare.

Párocos naturais de Ílhavo: Pe. João Vieira Resende

O Pe. João Vieira Resende nasceu em Ílhavo em 7 de Março de 1881, sendo irmão das senhoras Maria do Carmo Vieira Resende e Matilde Vieira Resende. Depois de ter cursado teologia no Seminário de Coimbra, foi ordenado presbítero em 22 de Dezembro de 1906 por D. Manuel Correia de Bastos Pina. Foi, seguidamente, capelão de Ouca, Gafanha da Nazaré e Vale de Ílhavo. Paroquiou depois Vila Verde até 1916 e novamente voltou a ser capelão de Vale de Ílhavo e da Ermida até 1921, data em que lhe foi entregue a paroquialidade de Vagos. Em peregrinação, foi a Roma em 1925 e a Lourdes em 1927. No ano de 1928 foi nomeado primeiro pároco da nova Paróquia da Gafanha da Encarnção, desmembrada da Paróquia de Ílhavo, onde paroquiou até 1948 altura em que fixou residência na sua casa de Vale de Ílhavo. Foi autor da obra " A Monografia da Gafanha", obra editada duas vezes e subsidiada pelo Instituto de Alta Cultura, por proposta do Dr. Paiva Boléo, sendo um profícuo interessado por assuntos toponimicos e de ciências naturais e frequente colaborados do jornal "O Ilhavense" e da revista "Arquivo do Distrito de Aveiro". Após doença prolongada em Coimbra, faleceu na sua residência de Vale de Ílhavo no dia 13 de Outubro de 1959.

Párocos de Ílhavo: Pe. Alberto Tavares de Sousa 1944-1948

O Pe. Alberto Tavares de Sousa nasceu na Murtosa a 12 de Abril de 1908. Frequentou o seminário da Torre da Marca, de Vilar e o seminário da Sé do Porto. Foi ordenado sacerdote na Sé do porto por D. António Augusto de Castro Meireles a 19 de Outubro de 1930. Anterioprmente já exercia funções de secretário do bispo do porto desde Novembro de 1928. A 9 de Janeiro de 1931 foi nomeado pároco de Santa Marinha de Real e de São Pedro do Paraíso. Em 14 de Setembro de 1937 transferido para coadjutor da Paróquia da Murtosa sendo nomeado a 27 de Outubro de 1939 como primeiro pároco da Paróquia de Pardelhas, freguesia desmembrada da Paróquia da Murtosa nesta data. A 6 de Outubro de 1944, é nomeado pároco de Ílhavo onde permaneceu até 23 de Abril de 1948. Nesta data regressa à paroquia de Pardelhas paroquiando até 11 de Dezembro de 1958, exercendo apartir de 1950 o cargo de director do Externato de são joão de brito na Murtosa, e o múnus de professor de Religião e moral até 1959. Entre Janeiro de 1962 e Junho de 1963 foi professor do ensino secundário no Externato de Oliveira do Bairro. Faleceu em Pardelhas ajudando no serviço pastoral das freguesias da Murtosa.

Párocos de Ílhavo: Pe. Basílio Jorge Ribeiro 1924-1944

O Pe. Basílio Jorge Ribeiro nasceu em Mira a 3 de Maio de 1863, na altura ainda pertença da Diocese de Aveiro. Frequentou o seminário de Coimbra fazendo a sua ordenação sacerdotal em Julho de 1888 na Sé Nova daquela cidade, realizada por D. Manuel Correia de Bastos Pina.
Em 1916 encontrava-se pároco de Vagos, onde tinha sido coadjutor. Em 24 de Abril de 1924 é nomeado pároco de Ílhavo, ascendendo a Arcipreste de Ílhavo em 11 de Junho do mesmo ano. A 6 de Outubro de 1944 deixou de paroquiar por falta de saúde falecendo em Ílhavo a 22 de Outubro de 1950. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Virgem do Rosário de Fátima em Ílhavo: apontamentos


pormenor da imagem da Virgem do Rosário de Fátima
Igreja paroquial de Ílhavo
José Ferreira Thedim, 1957
Maio, mês de Maria, mãe de Jesus, rainha dos anjos, estrela da manhã, refúgio dos pecadores, e a nossa mãe do céu.

Iniciamos esta rubrica sobre o património da Paróquia de São Salvador de Ílhavo dando destaque à devoção da Virgem Maria em Ílhavo, com especial enfoque na imagem da Virgem do Rosário de Fátima, que celebrará em 2017 o centenário da sua aparição.

Jardim à beira-mar da Europa, não deve surpreender que fosse Portugal escolhido para ser a Terra de Santa Maria, consagrando-lhe devoção o nosso primeiro rei e os monarcas vindouros.

De entre as primeiras representações da Virgem Maria no mundo, segundo a tradição, crê-se que em Portugal se situe a mais antiga representação. Desde o fim da romanização e com o início da cristandade, ainda durante a vida da Virgem Maria, que Portugal é apontado como um lugar de aparições e devoção, muito por intercessão da viagem de evangelização do Apóstolo São Tiago pela Hispânia. Segundo a lenda, chegando às terras onde havia de formar-se a Vila de Guimarães, o apóstolo São Tiago passando por num santuário pagão dedicado à Deusa Ceres purificou-o e consagrou-o aos mistérios cristãos, erguendo nele um altar com a imagem da Virgem (Nossa Senhora da Oliveira), imagem que no século X a Condessa Mumadona Dias fez transportar para o mosteiro que edificou em sua honra.

Também pelos fins do século X o nosso território da beira-mar, entre Douro e Vouga, aparece com a designação especial de Terra de Santa Maria, e povoado de lugares de culto e ermidas dedicadas à Virgem.
 

De todas as lendas e tradições, a que nos refere da primeira imagem esculpida da Virgem é a da aparição de Nossa Senhora da Nazaré. Crê-se que esta imagem foi esculpida pelas mãos do próprio São José, em presença do modelo vivo, e foi pintada pelo evangelista São Lucas. Foi passada a São Jerónimo que a enviou a Santo Agostinho. Ofereceu-a este, a um mosteiro de Ermitas perto de Mérida, capital da Lusitânia. Dali a trouxe o último rei dos Godos D. Rodrigo, depois da batalha de Guadalete e depositou-a naquele alto rochedo sobranceiro ao mar da Nazaré, onde em 1182 D. Fuas Roupinho a encontrou, e lhe mandou erigir uma ermida como voto de ter escapado ao famoso acidente vulgarizado nas estampas. Inúmeros escritores apontam esta imagem da Virgem Maria como a mais antiga, e mais chegada aos Apóstolos, do mundo.

O primeiro registo escrito de festa dedicada à Virgem Maria na Lusitânia surge-nos já no ano 656 pelo testemunho do 10º concílio de Toledo, onde estiveram presentes os bispos Cesário de Lisboa, Zózimo de Évora, Potâmio de Braga, Frutuoso de Dume e Flávio do Porto.

Em Ílhavo, a devoção à Virgem crê-se antiquíssima, antes da nacionalidade. A paroquial com invocação de São Salvador e uma primitiva ermida dedicada a São Cristóvão são deste facto testemunho.

O culto à Virgem ganhou novo fulgor, com as aparições de 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917, quando a Virgem Maria apareceu na Cova da Iria em Fátima aos três pastorinhos. Lembramos que na altura das aparições era vigário geral do patriarca de Lisboa o nosso depois bispo de Aveiro, D. João Evangelista de Lima Vidal, que acompanhou todo o processo,

A primeira capela dedicada à Virgem do Rosário de Fátima em Ílhavo foi a Capela da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, iniciada em Setembro de 1922 e dedicada e benzida a 26 de Março de 1931. Foi seguida, em 1942, pela capela da comunidade da Gafanha de Aquém, com aquisição da imagem nesse ano.

A imagem da Virgem do Rosário de Fátima da comunidade da Légua foi adquirida em Março de 1956, nas Oficinas de escultura de Fânzeres em Braga, assim como a imagem da Virgem e Fátima existente no Lar de São José, a mesma oficina executante da primeira imagem esculpida para Fátima em 1920, da autoria do escultor José Ferreira Thedim.

A Imagem da Virgem do Rosário de Fátima da Igreja paroquial de Ílhavo foi adquirida em Braga, nas Oficinas de Fânzeres em 31 de Outubro de 1957, encomendada pelo pároco da altura, D. Júlio Tavares Rebimbas, mais tarde bispo do Porto. A aquisição desta imagem, precisamente 40 anos após a sua aparição, coincidiu também com a passagem da imagem da Virgem de Fátima que peregrinou pelas paróquias da diocese de Aveiro e que festivamente chegou a Ílhavo no dia 10 de Novembro de 1957, pernoitando em cada uma das comunidades até ao dia 17.
Passagem por Ílhavo da Virgem Peregrina de Fátima em Novembro de 1957
O jornal Família Paroquial do mês de Novembro desse ano informa que já se encontrava em Ílhavo a nova imagem, modelada e esculpida em madeira de cedro brasileiro com 130cm, conforme as indicações da irmã Lúcia de Jesus, testemunha ocular da aparição. Segundo o seu testemunho de 8 de Dezembro de 1941, a Virgem encomendada para Ílhavo, a Virgem do Coração Imaculado de Maria, é a imagem mais parecida com a visão que tiveram os três pastorinhos em Fátima. A imagem foi colocada provisoriamente no altar das Almas da Igreja Paroquial, transitando mais tarde para apoio em pedra, na lateral direita da capela-mor, onde se encontra à veneração.

Hugo Cálão Mestre em História e Património